José Alberto de Carvalho: tributação dos lucros do Google fora de Portugal é “problema gravíssimo”

O coordenador de projectos editoriais do grupo Impresa, Henrique Monteiro, afirmou neste domingo que, embora os jornais tenham mais leitores do que alguma vez tiveram, nunca venderam tão pouco, criticando o “total agnosticismo” das empresas em relação às novas plataformas.

A falar na conferência internacional O Regresso do Jornalismo: A Grande Reportagem na Era Digital, no painel de debate sobre “modelos para o jornalismo digital em Portugal”, Henrique Monteiro resumiu o problema em discussão com a seguinte ideia: “Os jornais nunca tiveram tantos leitores, mas nunca tiveram tão poucas vendas”, disse.

O jornalista, que foi director do semanário Expresso, defendeu que tal acontece porque “existe um total agnosticismo em relação às plataformas [na Internet]”, argumentando que, embora “o fundamental seja o jornalismo”, este “tem de saber adaptar-se às novas realidades”.

Para Henrique Monteiro, os jornais em papel vão ser “cada vez mais de nichos” e o jornalismo digital “vai ser cada vez mais popular”. “Nenhum meio matou os anteriores, os suportes é que são descartáveis. O meio nunca acaba, nunca vão acabar os jornais, mas podem – e vão – ficar configurados de outra forma”, acrescentou.

Para a directora executiva online do PÚBLICO, Simone Duarte, o actual modelo de negócio “está falido”, e hoje “já não se pensa em jornalismo sem pensar em vídeo, móvel e [rede] social”. É preciso que os jornais se assumam como “marcas” e no que essa marca significa na relação com o leitor, defendeu.

De acordo com a Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT), o jornal vende hoje quase 30 mil exemplares por dia, mas o site tem, de acordo com Simone Duarte, 52 mil leitores registados e a página do jornal na rede social Facebook tem 450 mil seguidores, mas “alcança um milhão de pessoas”.

Actualmente, acrescentou a jornalista, o PÚBLICO “fala” com 3 milhões de pessoas por mês: “E a métrica – o tempo que o leitor fica com o jornal – é muito importante. Não importa onde [em que plataforma]”, afirmou.

Na opinião do director de informação da TVI, José Alberto Carvalho, os modelos de financiamento dos media na era digital terão de ser “múltiplos”, uma vez que o velho modelo, em que o preço de capa e a publicidade financiavam o jornal, “morreu”.

Hoje, “vivemos num mundo em que nos sentimos saciados de informação”. A informação, disse o jornalista, “tornou-se banal”, criando uma “falsa ilusão de saciedade”. “A pergunta que acho que deve ser feita é: a sociedade quer mesmo jornalistas? As pessoas valorizam as notícias? Estão dispostas a pagar por elas?”

José Alberto Carvalho afirmou que “o que as empresas jornalísticas estão a fazer, sobretudo em países em crise financeira, é tentar fazer o mesmo com cada vez menos”, considerando que, neste momento, “não há outra discussão no seio das empresas”.

O responsável lamentou ainda que a Google tenha “entre 50 e 70 milhões de euros de lucros por ano com Portugal – com dinheiro retirado do mercado publicitário português – e que este dinheiro seja tributado no Luxemburgo”.

“Que se saiba este dinheiro sai do mercado publicitário português. Acho que isto é um problema gravíssimo. Porque eu não tenho como melhorar as condições de trabalho dos extraordinários jornalistas que trabalham na TVI, porque não consigo convencer os gestores a investir, e não consigo reorganizar a minha redacção para breaking news, agenda e jornalismo distintivo”, concluiu.

Fonte: Público